A casa ainda estava lá

Na parte anterior, Odisseu voltou a Ítaca como mendigo. Antes de governar, precisou observar. A casa que encontrou estava ocupada por homens que comiam sua comida, bebiam seu vinho, disputavam Penélope e se comportavam como se a ausência prolongada do mestre tivesse criado um direito sobre aquilo que não haviam construído. Mas há uma segunda descoberta escondida nessa mesma cena: Ítaca não estava apenas ocupada. Ítaca ainda estava viva. Talvez seja fácil demais contar a Odisseia como a história do homem que retorna e recupera sua casa. Há algo anterior a isso. Quando Odisseu finalmente chegou, ainda existia uma casa capaz de ser recuperada.

Penélope continuava ali. Telêmaco havia crescido. Eumeu ainda cuidava do território que lhe fora confiado. Atena continuava alterando as condições para que o movimento não cessasse. Nenhum deles podia substituir Odisseu, mas talvez, sem eles, Odisseu tivesse voltado apenas para ruínas. Essa distinção importa também para a leitura dos muitos eus. Na parte anterior, propus que pluralidade não é a doença. Um sistema vivo é composto por funções diferentes. O problema começa quando uma função parcial ocupa o centro e passa a falar como se fosse a totalidade. Agora podemos acrescentar outra coisa: mesmo quando o centro foi capturado, nem todas as funções adoecem da mesma maneira. Algumas continuam trabalhando. Talvez sejam justamente elas que mantenham aberta a possibilidade de reorganização.

Penélope preserva o possível

Durante anos, Penélope engana os pretendentes com o tear. De dia, tece. À noite, desfaz o que havia tecido. A imagem costuma ser resumida como fidelidade conjugal, mas isso empobrece um pouco o movimento. Penélope não pode expulsar os pretendentes, não pode trazer Odisseu de volta e não pode simplesmente declarar Telêmaco pronto para ocupar o lugar do pai. O que consegue fazer é impedir que uma situação provisória se transforme depressa demais em destino. A narrativa que tenta se impor sobre a casa é simples: Odisseu morreu, a espera terminou, escolha outro homem e reorganize Ítaca ao redor da ausência. Penélope não possui uma prova de que essa narrativa seja falsa. Mesmo assim, mantém uma abertura.

Por isso, talvez seja insuficiente dizer que ela conserva o passado. Seu gesto também protege o futuro. Ela preserva a possibilidade de que ele ainda não esteja decidido. Isso é diferente de negar a realidade. Há momentos em que insistir numa possibilidade já morta é apenas apego, mas há outros em que o sistema fecha cedo demais uma questão porque não suporta permanecer em incerteza. Penélope vive dentro desse intervalo. Ela não sabe, mas não entrega a casa à primeira conclusão disponível. De dia, uma forma se organiza. À noite, ela é novamente aberta. Não para permanecer eternamente indecisa, mas para impedir que o campo seja encerrado antes da hora.

A mortalha é de Laertes ou Odisseu?

No filme, pode surgir uma dúvida bastante natural: afinal, para quem Penélope está tecendo a mortalha? Para Odisseu, cuja ausência sustenta toda a tensão da casa, ou para Laertes? O poema é claro: a mortalha é para Laertes, pai de Odisseu, ainda vivo. No livro 2, a justificativa é muito concreta: Laertes é um homem idoso, de grandes posses, e Penélope diz que não quer ser censurada pelas mulheres da Acaia caso ele morra sem uma mortalha adequada. O artifício funciona justamente porque a obrigação é plausível. Ela pode adiar o casamento sem precisar declarar que Odisseu está vivo, e também sem aceitar que esteja morto.

Laertes ocupa uma posição curiosa na arquitetura de Ítaca. É o pai de Odisseu, antigo rei e geração anterior da casa. No fim do poema, encontramos esse velho homem afastado do palácio, trabalhando numa propriedade rural, envelhecido pela dor e pela ausência do filho. Odisseu ainda precisa reencontrá-lo e ser reconhecido por ele. Isso impede que Laertes seja lido apenas como passado morto. Ele é uma raiz ainda viva. Numa leitura simbólica (e aqui já saímos de Homero e entramos em nossa hipótese), há algo muito preciso no fato de Penélope usar a futura mortalha da geração anterior para adiar a substituição da geração ausente. O tecido que deveria acompanhar o encerramento de uma vida se transforma em instrumento para impedir que outra ausência seja encerrada prematuramente. Enquanto a mortalha não termina, o novo casamento também não começa.

Isso torna o gesto de Penélope menos romântico e mais estrutural. Ela não está apenas esperando um homem. Está impedindo que a casa rompa rapidamente uma continuidade entre gerações e entregue o centro a uma nova organização antes de saber o que realmente aconteceu com a anterior. O filme de Christopher Nolan elimina Laertes, uma das omissões importantes da adaptação. A escolha simplifica a linhagem e concentra o drama em Penélope, Telêmaco e Odisseu. Funciona cinematograficamente, mas retira justamente essa quarta presença silenciosa: o pai ainda vivo do homem ausente, a geração anterior que também precisa participar do retorno.

Telêmaco e a parte que precisa crescer

Telêmaco preserva outra coisa. Ele não preserva o passado, preserva o futuro. Quando a Odisseia começa, já não é criança, mas ainda vive dentro de uma casa organizada pela ausência do pai. Cresceu observando homens que consomem aquilo que um dia deveria aprender a administrar. A ausência de Odisseu não produz apenas saudade. Produz uma lacuna de formação. É por isso que Atena não aparece para Telêmaco apenas para consolá-lo. Ela o coloca em movimento. Ele precisa falar, perguntar, viajar, ouvir outros homens, procurar notícias e arriscar uma posição pública. Precisa começar a sair da condição de filho que espera.

Há algo aqui que toca uma linguagem muito presente em processos contemporâneos de desenvolvimento pessoal. A criança ferida importa. Reconhecer aquilo que faltou importa. Dar nome ao medo, à ausência, à insegurança e à necessidade de proteção pode ser parte essencial de uma cura. Mas existe um perigo quando a descoberta da criança se torna a explicação total do adulto. A criança precisa voltar para casa, mas não precisa sentar-se sozinha no trono. Telêmaco não deixa de ser o filho de Odisseu quando cresce. O que muda é a organização dessa identidade. Ele passa de filho ferido a herdeiro, de herdeiro a alguém capaz de perguntar, de alguém que pergunta a alguém capaz de agir. Mais tarde poderá participar da restauração da casa. Talvez amadurecer não seja expulsar a criança, mas retirar dela uma responsabilidade que nunca deveria ter carregado: governar sozinha a vida adulta.

Eumeu e o pedaço da casa que ainda responde

Eumeu talvez seja o personagem mais interessante para esta parte justamente porque sua função parece pequena. Ele não está no palácio, não controla a política de Ítaca, não possui poder para expulsar os pretendentes e não conhece a totalidade do que está acontecendo. Ele cuida dos porcos. Diante da escala épica da história, isso pode parecer quase irrelevante. Só que não é. No livro 14, quando Odisseu chega disfarçado à sua cabana, encontramos Eumeu trabalhando. Ele construiu cercados, organiza homens, protege os animais, recebe o estrangeiro e continua sustentando uma parte concreta da casa.

E há um detalhe especialmente incômodo. Os melhores animais que ele cria são enviados para os pretendentes. Homero torna explícita a tensão entre o trabalho dos homens de Eumeu e aqueles que colhem o fruto desse trabalho. A imagem é quase brutal de tão simples: uma função saudável continua trabalhando dentro de um sistema doente, e o sistema doente se alimenta do trabalho dela. Talvez muita gente reconheça essa situação sem precisar de mitologia. Uma pessoa mantém a família funcionando enquanto outra consome tudo ao redor. Uma equipe competente continua entregando enquanto uma estrutura de poder captura seus resultados. Uma parte de nós continua dormindo, trabalhando, pagando contas, mantendo vínculos e cuidando do corpo enquanto outra transforma toda essa energia em combustível para compulsões, fantasias ou ambições que nunca se satisfazem.

Eumeu não consegue salvar Ítaca. Mas consegue impedir que o pedaço de Ítaca sob seus cuidados deixe completamente de ser Ítaca. Há uma forma de saúde que não aparece como iluminação, poder ou visão total. Aparece como cuidado local, como alguém que ainda sabe alimentar os animais, como alguém que recebe um estranho sem saber que está recebendo o próprio mestre, como alguém que continua fazendo bem aquilo que está ao alcance mesmo quando não pode reorganizar a totalidade.

Menos visão, mais campo

A adaptação de Christopher Nolan acrescenta a Eumeu uma característica que não existe no poema homérico. No filme, John Leguizamo interpreta um Eumeu com visão severamente comprometida e usou lentes que restringiam sua capacidade de enxergar durante as filmagens. É importante separar as coisas. O Eumeu com essa limitação visual pertence a Nolan. A leitura que fazemos dessa escolha pertence a nós.

Mas a mudança cria uma imagem interessante. Quem vê pouco precisa perceber de outras maneiras: vozes, passos, ritmos, movimentos, inflexões, memória do espaço, presença dos animais e relações entre sons. Isso permite uma hipótese simbólica bonita. Eumeu possui pouco poder sobre a totalidade e pouca visão do campo inteiro, mas responde com precisão ao território próximo. Menos visão ocular não significa necessariamente menos percepção. Às vezes significa outra organização da atenção. Talvez exista aí uma pequena correção para nossa obsessão com compreender tudo antes de agir. Eumeu não precisa enxergar toda Ítaca para cuidar bem do que está diante dele. Há momentos em que a saúde de um sistema depende justamente disso: uma função que não tem a visão do todo, mas responde com qualidade ao campo local.

Antes de procurar o alto, é preciso algum chão

Esse ponto ajuda a aproximar Eumeu de uma ideia de Gurdjieff que vale usar com cuidado. Em Meetings with Remarkable Men, especialmente no capítulo final, Gurdjieff descreve com certo orgulho a formação de capacidade prática, senso comum e engenhosidade. Diz que cedo se tornou capaz de ganhar o suficiente para prover suas necessidades imediatas e relata de que maneira recorria ao ganho material quando precisava sustentar a existência comum e as condições de sua busca. Isso não significa que ganhar dinheiro seja prova de desenvolvimento, que uma profissão seja medida de valor humano ou que dificuldade econômica seja falha moral. A provocação é outra.

Existe crescimento pessoal que pode virar fuga da vida. Uma pessoa pode aprender vocabulário sobre consciência, trauma, energia, essência, presença e iluminação sem ter desenvolvido capacidades muito básicas para sustentar uma existência. Pode falar sobre desapego sem conseguir assumir compromissos, discutir o ego sem conseguir cooperar, ou buscar estados elevados enquanto terceiriza continuamente para outros o trabalho necessário para manter sua própria vida funcionando. Nesse sentido, há algo profundamente compatível com o Quarto Caminho na imagem de Eumeu. Ele não está fora da vida procurando uma vida espiritual. Ele está dentro da vida. Trabalha, cuida, responde a necessidades concretas e sustenta um território. Isso não é o fim do caminho, mas pode ser parte do chão sem o qual o caminho vira imaginação sobre si mesmo. Na linguagem do Quarto Caminho, isso toca uma questão básica: antes de buscar níveis mais altos de desenvolvimento, o sistema precisa possuir condições mínimas para permanecer vivo e responder ao real.

Atena e a ajuda que não pode viver por você

Atena parece pertencer a outra categoria. Penélope, Telêmaco e Eumeu preservam coisas dentro da casa. Atena entra e sai do campo. Ela aparece disfarçada, provoca movimentos, favorece encontros, protege, altera aparências, empurra Telêmaco para fora da imobilidade e ajuda Odisseu a chegar ao ponto em que seu retorno se torna possível. Mas há algo que ela não faz. Ela não amadurece Telêmaco por ele, não escolhe Ítaca por Odisseu, não suporta Calipso em seu lugar, não reconstrói o casamento e não governa a casa.

Isso torna Atena uma boa imagem para aquilo que podemos chamar, com cuidado, de influência consciente. Existem ajudas que não resolvem nosso problema. Fazem algo talvez mais importante: mudam as condições para que possamos enfrentá-lo. Uma boa terapia pode fazer isso. Um professor pode fazer isso. Uma amizade pode fazer isso. Uma crise pode fazer isso. Um livro pode fazer isso. Uma pessoa aparece, uma pergunta é feita, uma rota se abre, uma coincidência ganha peso e aquilo que parecia imóvel começa a se mover. Mas nenhuma dessas coisas pode incorporar a transformação no nosso lugar. A transformação é distribuída em suas condições, mas singular em sua incorporação. O campo pode sustentar a travessia. Não pode atravessá-la no lugar do sujeito.

Quatro maneiras de manter uma casa viva

Talvez agora possamos olhar novamente para Ítaca. Penélope mantém aberta uma possibilidade. Telêmaco desenvolve a capacidade de participar do futuro. Eumeu preserva território, trabalho e cuidado cotidiano. Atena preserva movimento. Nenhuma dessas funções é suficiente, e essa é justamente a beleza da imagem. Uma casa viva não depende de uma parte perfeita. Depende de relações entre funções diferentes. Penélope sem Telêmaco poderia transformar espera em suspensão infinita. Telêmaco sem Penélope poderia herdar uma casa que já tivesse desistido de si mesma. Eumeu sem qualquer horizonte maior poderia cuidar indefinidamente de um território cuja energia continuaria sendo consumida pelos pretendentes. Atena sem sujeitos capazes de responder seria apenas influência sem incorporação.

Cada função preserva alguma coisa. Nenhuma possui o direito de dizer: eu sou a casa. Talvez esse seja um critério útil para distinguir saúde de captura. Uma função relativamente saudável não precisa governar tudo para continuar fazendo aquilo que lhe cabe. Ela conhece seus limites, mantém seu território e contribui para a totalidade sem fingir ser a totalidade. Isso vale para uma família, uma organização, uma cultura e também para uma pessoa. Mesmo em períodos de crise profunda, pode existir uma amizade que permanece boa, um hábito corporal que ainda funciona, uma profissão que continua exigindo realidade, uma capacidade de cuidar, uma parte que ainda consegue dizer a verdade, uma pequena rotina que impede o caos total. Talvez essas coisas pareçam humildes porque não se parecem com transformação. Mas às vezes são a condição para que qualquer transformação futura ainda seja possível.

A casa sobreviveu. Agora precisa reconhecer quem voltou

Quando Odisseu retorna, portanto, ele não encontra uma casa intacta, mas também não encontra um vazio. Encontra um organismo ferido que continuou produzindo vida em alguns lugares. Isso muda a própria ideia de retorno. O mestre não volta para recomeçar do zero. Volta para uma casa que aprendeu coisas durante sua ausência. Algumas partes se corromperam. Outras amadureceram. Outras simplesmente continuaram cuidando do pedaço que lhes havia sido confiado. O retorno não apaga esse processo. Precisa encontrá-lo.

Talvez seja por isso que a restauração de Ítaca não possa ser apenas a entrada de um rei pela porta. Há outro problema. O homem que retorna não é igual ao homem que partiu. A casa mudou. O mestre também. Então a pergunta seguinte deixa de ser apenas quem permaneceu fiel e se torna muito mais difícil: como reconhecer um mestre que volta irreconhecível? É aí que entram um cachorro velho, uma cicatriz, um arco e uma cama construída ao redor de uma árvore. Mas essa é a próxima parte.

Notas e fontes de apoio

A leitura simbólica apresentada neste artigo é autoral.

Próxima parte: Como reconhecer um mestre que volta irreconhecível?